Os quatro Evangelhos: o que cada um destaca
Por equipe Bíblia em Áudio · Publicado em
O Novo Testamento começa com quatro relatos da vida de Jesus. Eles contam a mesma história, mas cada autor escreveu para leitores diferentes, escolheu episódios diferentes e destacou aspectos diferentes de quem Jesus é. Conhecer essas diferenças torna a escuta muito mais rica.
O que é um "Evangelho"
A palavra vem do grego euangélion, que significa "boa notícia". No mundo romano ela era usada para anunciar, por exemplo, a vitória de um imperador. Os primeiros cristãos a usaram para a notícia da vida, morte e ressurreição de Jesus. Só mais tarde a palavra passou a designar também os livros que contam essa história.
Os Evangelhos não são biografias no sentido moderno. Quase não falam da infância e da juventude de Jesus e dedicam uma parte enorme do texto à última semana da sua vida. São relatos escritos para que o leitor conheça Jesus e responda a ele.
Os três "sinóticos" e João
Mateus, Marcos e Lucas são chamados de Evangelhos sinóticos, de uma palavra grega que significa "ver junto". Eles seguem um roteiro parecido, compartilham muitos episódios e às vezes usam quase as mesmas palavras. Dá para colocá-los lado a lado, em colunas, e comparar.
A maioria dos estudiosos entende que Marcos foi escrito primeiro e que Mateus e Lucas o usaram como uma de suas fontes, junto com outras tradições sobre os ensinos de Jesus. Isso explica por que quase todo o conteúdo de Marcos reaparece nos outros dois.
João segue outro caminho. Boa parte do que ele conta não está nos sinóticos: as bodas de Caná, a conversa com Nicodemos, a mulher samaritana, a ressurreição de Lázaro, o lava-pés. Em vez de parábolas curtas, há longos discursos e diálogos.
Mateus: o Messias prometido
Mateus escreveu sobretudo para cristãos de origem judaica. Por isso começa com uma genealogia que liga Jesus a Abraão e a Davi e cita o Antigo Testamento a todo momento, mostrando Jesus como o cumprimento das promessas feitas a Israel.
Sua marca é a organização do ensino em cinco grandes discursos. O mais conhecido é o Sermão do Monte (capítulos 5 a 7), com as bem-aventuranças e o Pai Nosso. Só Mateus conta a visita dos magos, a fuga para o Egito e a parábola das dez virgens.
Marcos: o Filho de Deus em ação
Marcos é o mais curto e o mais rápido. Não conta o nascimento de Jesus e usa o tempo todo a palavra "logo", passando de uma cena a outra. É um Evangelho de ação: mais milagres e movimento do que longos discursos.
É também o mais franco sobre as falhas dos discípulos, que não entendem, têm medo e fogem. A pergunta "quem é este?" atravessa o livro até a resposta de Pedro em Marcos 8 e a confissão do centurião na cruz em Marcos 15.
Lucas: o Salvador de todos
Lucas escreveu para um leitor de cultura grega chamado Teófilo e se apresenta como alguém que investigou tudo com cuidado. É o primeiro volume de uma obra que continua no livro de Atos.
É o Evangelho dos que estavam à margem: pobres, mulheres, samaritanos, cobradores de impostos. Só Lucas conta o nascimento de João Batista, os pastores em Belém, a visita de Jesus ao templo aos doze anos, Zaqueu, o caminho de Emaús e parábolas como o bom samaritano (Lucas 10) e o filho pródigo (Lucas 15). A oração e a alegria aparecem com frequência.
João: a Palavra que se fez carne
João é provavelmente o último a ser escrito e o mais reflexivo. Começa antes da criação, com a Palavra que estava com Deus, e organiza a primeira parte em torno de sete sinais, milagres que revelam quem Jesus é.
Nele estão as declarações "Eu sou": o pão da vida (João 6), a luz do mundo (João 8), o bom pastor (João 10), a ressurreição e a vida (João 11), o caminho, a verdade e a vida (João 14) e a videira (João 15). Cinco capítulos inteiros (13 a 17) se passam na última noite com os discípulos.
Comparação rápida
| Mateus | Marcos | Lucas | João | |
|---|---|---|---|---|
| Capítulos | 28 | 16 | 24 | 21 |
| Primeiros leitores | Cristãos de origem judaica | Cristãos não judeus, provavelmente em Roma | Teófilo e leitores gregos | Comunidades da Ásia Menor |
| Jesus como | Messias e Rei | Filho de Deus que serve | Salvador de todos | Palavra eterna, Filho de Deus |
| Começa com | Genealogia desde Abraão | João Batista no deserto | Prólogo e nascimento de João | "No princípio era o Verbo" |
| Marca do estilo | Cinco grandes discursos | Ritmo rápido, muita ação | Parábolas e personagens à margem | Sinais, diálogos e "Eu sou" |
Mesma história, detalhes diferentes
Quando um episódio aparece em mais de um Evangelho, as diferenças não são um problema: são como depoimentos de testemunhas diferentes, cada uma com seu ângulo. Um bom exercício é ouvir o mesmo episódio em dois livros, um depois do outro. Alguns exemplos:
- A multiplicação dos pães é o único milagre, além da ressurreição, que está nos quatro: Mateus 14, Marcos 6, Lucas 9 e João 6. Só João menciona o menino que tinha os pães, e só ele liga o milagre ao discurso sobre o pão da vida.
- As bem-aventuranças aparecem em Mateus 5, no alto de um monte, e em Lucas 6, num lugar plano, onde vêm acompanhadas de "ais".
- As palavras de Jesus na cruz variam: Marcos e Mateus registram o clamor "Deus meu, por que me desamparaste?"; Lucas traz o perdão aos que o crucificam e a promessa ao ladrão; João registra "Está consumado". Ouça Marcos 15, Lucas 23 e João 19 em sequência.
Em cada página de capítulo deste site, a seção Passagens paralelas mostra onde o mesmo episódio aparece nos outros Evangelhos.
Por onde começar
Para quem nunca ouviu um Evangelho inteiro, Marcos é a porta de entrada mais simples. Veja a ordem sugerida em Por onde começar a ouvir a Bíblia ou siga o plano de 30 dias, que passa pelos quatro.